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A lógica do abuso de poder

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"São medidas para amedrontar", disse Kleber Cabral , presidente da  Unafisco , e lascou: "é mais seguro investigar o PCC do que altas  autoridades". A crítica doeu em algum lugar de Brasília. Seu ponto era  dizer que não era razoável sair colocando tornozeleira eletrônica em  funcionários da Receita, naquela fase da investigação. Teria razão? Quando li aquilo, me lembrei das denúncias de Tagliaferro . Elas eram  graves, nada foi investigado e o sujeito ainda virou réu. Rapidamente,  um filme me passou pela cabeça. O comediante Bismark Fugazza , preso por  meses, vida quebrada no meio, por um punhado de críticas e piadas a  "autoridades"; o famoso tuíte do Prof. Marcos Cintra sobre algumas  urnas. E logo a censura, a humilhação. E mais toda a bizarrice  brasileira dos últimos anos. O curioso é que Cabral terminou provando seu ponto. Foi ele mesmo parar  na Polícia Federal, intimado pelo Supremo a dar "explicações" sobre  sua ...

A política atravessou o samba: quando a festa vira propaganda oficial

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O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do Brasil. É arte,  identidade popular, alegria e também uma gigantesca engrenagem econômica  que gera empregos, movimenta o turismo e sustenta milhares de famílias. Por isso mesmo, deve ser respeitado como patrimônio cultural e  preservado como espaço de criatividade e liberdade. O problema começa quando essa festa, que deveria ser do povo, passa a  ser usada como instrumento político, especialmente quando há dinheiro  público envolvido. A homenagem feita pela escola de samba Acadêmicos de Niterói ao  presidente Lula poderia ser tratada apenas como uma escolha artística,  se fosse espontânea, legítima e financiada por recursos privados, como  ocorre em tantas manifestações culturais. Mas deixa de ser apenas  cultura quando se descobre que existe participação direta de estruturas  do governo, envolvimento da primeira-dama e financiamento público por  meio da Embratur. A partir desse ...

A saída não é o aeroporto. É o senado.

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A saída não é o aeroporto. É o senado. "Se o Brasil não eleger um Senado altivo, o favorito para ganhar a  eleição é o STF ". Boa parte dos leitores que me escrevem confessa seu desalento com a  justiça brasileira e, particularmente, com uma suprema corte que, no  dizer dos mais indignados, solta corruptos, prende inocentes, é leniente  com a delinquência e particularmente com o crime organizado. A tônica  destes desabafos é a normalização de absurdos, como o contrato de R$  129 milhões firmado pelo Banco Master com a esposa do ministro Alexandre  de Moraes, e os negócios de outro ministro, Dias Toffoli, com fundos  ligados ao controlador do Master, Daniel Vorcaro, ora sob investigação  da Polícia Federal. A contundência das manifestações é maior contra Moraes, que,  diferentemente de Toffoli, defende-se atacando seus críticos e  intimidando, de modo oblíquo, jornalistas que lançam luzes sobre o  contrato que escandalizou o pa...

O enredado, no samba-enredo

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Foi complicado assistir pela TV ao desfile da Escola de Samba qu  homenageou Lula na Sapucaí. Qual era, mesmo, o canal da Globo? Minha  mulher - graças a Deus! - também não fazia a menor ideia. Há tantos anos  não sintonizávamos essa emissora que precisei sair atrás, de canal em  canal. Quando pensei ter encontrado, percebi, instantes depois, que  estava na tal Globo News. Continuei buscando no sentido decrescente até  topar com a RBSTV em rede com a Globo na transmissão. Não vou analisar a letra do samba-enredo homenageando o enredado  presidente. Aliás, samba-enredo de homenagem a Lula é piada pronta. Foi  como ouvir discursos de petistas numa sessão da Câmara dos Deputados.  Muito barulho de prato e pouca comida. A sete meses da eleição, com um ilícito eleitoral em cada verso e em  cada alegoria para o mundo assistir ao vivo, a inusitada homenagem  concede ao TSE tempo para julgar o assunto quando for mais oportuno. E  aí se...

Desfile não foi a favor de Lula, foi contra você

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O espetáculo degradante protagonizado pela Acadêmicos de Niterói ontem,  em uma leitura apressada, pode parecer apenas uma parada norte-coreana  de culto ao líder supremo, com direito a mitificação da trajetória,  demonização de adversários e estátua para reverência ao final. Foi isso  e muito mais. A comissão de frente trouxe Jair Bolsonaro representado como o palhaço  Bozo, um xingamento infantil baseado em um trocadilho descerebrado. O  ex-presidente apareceu novamente, em um carro alegórico horrendo, como  um enorme monstro aprisionado, um King Kong acorrentado para deleite do  público. Na história original, o animal se livra das correntes. Outro carro apresentou a oposição a Lula como um bloco composto pelo  agronegócio, mulheres de classe alta, defensores da ditadura militar e  cristãos. Todos aqueles que esquecem, por vezes, que têm um alvo na  testa por revolucionários de todas as eras. Outra ala baseada em trocadilho infant...

A Quarta de Cinzas chegou para o STF

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A maior parte do Brasil passou o carnaval pensando no que fazer na  folga, na programação dos blocos de sua cidade ou na classificação das  escolas de samba na Sapucaí. No Supremo Tribunal Federal (STF), foram  dias de tensão sem trégua. Os ministros ainda nem tinham digerido o  trauma provocado pela reunião secreta em que obrigaram Dias Toffoli a  deixar a relatoria do caso Master quando Alexandre de Moraes mandou que  a Polícia Federal (PF) batesse à porta de quatro servidores da Receita e  do Serpro em plena Terça-feira Gorda, numa operação para combater o  possível vazamento indevido de dados sigilosos de Ministros do Supremo  Tribunal Federal, do procurador-geral da República e de seus  familiares . Em tese, Moraes defendeu o tribunal, portanto era de esperar que a  operação fosse bem recebida por seus pares. Na prática, não foi bem  assim. Mesmo os que costumam apoiar suas investidas se incomodaram por  não terem sid...

Família enlatada no Carnaval.

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  A expressão "família enlatada" (ou "família em conserva") surgiu no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no Carnaval do Rio de janeiro de 2026. A agremiação homenageou o presidente lula com o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: lula, o operário do Brasil". Na ala chamada "Neo conservadores em Conserva", os componentes desfilaram fantasiados de latas de conserva, com rótulos exibindo a imagem clássica de família tradicional (pai, mãe e filhos). O significado era satírico e crítico: representar o modelo de família defendido por setores neoconservadores (evangélicos, militares, agronegócio, elite) como algo engessado, ultrapassado e "enlatado" - conservado artificialmente no tempo, rígido e fechado a mudanças sociais. A escola usou a lata como metáfora de valores "preservados" de forma estática, opondo-se a pautas progressistas associadas ao governo homenageado. A ala gerou grande polêmica: deputados, eva...