Quando a mulher se torna apenas “pessoa que gesta”

A estação não é neutra; envolve corpo, identidade, vínculo emocional, história, feminilidade.

Há algo profundamente preocupante acontecendo quando o próprio Estado começa a apagar a palavra “mãe” de documentos oficiais. A nova caderneta da gestante substituindo “mãe” por “pessoas que gestam” não é apenas uma mudança de vocabulário. É uma mudança cultural, ideológica e simbólica.

Durante décadas, mulheres lutaram para que a maternidade fosse reconhecida com dignidade. Lutaram por licença-maternidade, proteção à gestante, combate à violência obstétrica, acolhimento no parto, respeito emocional e valorização da figura materna. Agora, em nome de uma suposta inclusão, a mulher passa a ser reduzida a uma expressão técnica e impessoal. Assim, a mãe deixa de ser mãe. A mulher deixa de ser mulher. E passa a ser apenas “uma pessoa que gesta”.

Isso não humaniza. Isso despersonaliza. A gestação não é um fenômeno neutro. Ela envolve corpo, identidade, vínculo emocional, história, feminilidade, maternidade e significado humano profundo. Quando o governo troca a palavra “mãe” por termos genéricos, transmite a ideia de que reconhecer a mulher como mulher se tornou algo inconveniente.

E isso gera um paradoxo grave: os mesmos movimentos que durante anos afirmaram defender os direitos das mulheres agora ajudam a dissolver a própria identidade feminina em discursos ideológicos.

A consequência disso é perigosa; porque quando a linguagem apaga a mulher, a cultura também começa a apagá-la. E quando a mulher desaparece do discurso público, seus direitos específicos ficam mais frágeis.

Como proteger políticas voltadas às mães se a maternidade deixa de ser nomeada? Como defender direitos femininos específicos se tudo passa a ser tratado de forma neutra e abstrata?

Além disso, enquanto milhões de mulheres enfrentam abandono, violência, sobrecarga emocional, depressão pós-parto, dificuldades financeiras e falta de apoio real, parte do debate institucional parece concentrado em desconstruir palavras básicas da experiência humana. Isso não melhora a saúde pública. Não protege mulheres vulneráveis. Não fortalece mães. É apenas militância ideológica infiltrada em espaços que deveriam priorizar cuidado, acolhimento e realidade concreta.

Mulheres não são “corpos gestantes”. São seres humanos completos, com identidade, história, dignidade e valor próprio. Defender a mulher jamais deveria significar apagar a palavra mulher.

Marisa Lobo atua como psicanalista, é pós-graduada em Psicanálise; Gestão e Mediação de Conflitos; Educação de Gênero e Sexualidade; Filosofia de Direitos Humanos e Saúde Mental; tem também habilitação para magistério superior.

Marisa Lobo

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