O comunista está nu, de novo.
Uma das características da esquerda radical que empanturra universidades e redações ao redor do globo sempre foi esconder suas intenções por trás de um reboco de palavrórios e teses intelectuais. O que são as filosofias advindas do materialismo antropológico de Ludwig Feuerbach, se não a perpetuação inteligente das estruturas ideológicas e suas propagandas? O que é a tese de "hegemonia cultural" de Antonio Gramsci, se não o totalitarismo alçando voos culturais e espirituais no Ocidente distraído, sob a roupagem retórica de uma sociedade orgânica e livre guiada com fofura por correntes de faz-de-conta?
Porém, vez ou outra na história, o comunista fica nu ante alguns acontecimentos históricos que colocam à prova a sua fidelidade ideológica frente a sua coerência discursiva; isto é, aquilo no qual realmente acredita, frente aquilo que ele quer que os outros acreditem que ele acredita. São poucos os socialistas que passam incólumes nesse teste, acredite. Coerência nunca foi o forte deles.
Por exemplo, o grande George Bernard Shaw atuou como um dos mais fervorosos apologistas do regime de Stálin, utilizando seu prestígio intelectual para classificar os relatos sobre o Holodomor como meras mentiras da propaganda antissoviética. Após uma visita guiada e coreografada à URSS em 1931, onde foi recebido com banquetes em meio à crise alimentar, Shaw sustentou publicamente que não havia fome na URSS, chegou a descrever os gulags como centros de reeducação humanitários e defendeu o direito do Estado de exterminar fisicamente elementos socialmente improdutivos. Sua negação era profundamente ideológica e pensada, não se tratava de cegueira, mas de consciência deliberada em prol de sustentar o absurdo com o intuito de que se concretizasse a utopia esperada. Afinal, admitir o fracasso e a brutalidade do sistema soviético significaria o colapso de sua própria crença, da persona pública como socialista convicto, no planejamento estatal às teses nas quais já tinha se emaranhado demais para simplesmente se desvencilhar.
Jean-Paul Sartre, por sua vez, manteve uma estratégia conhecida como o "silêncio necessário" no início da década de 1950. Mesmo ciente da existência dos gulags, ele evitou condenar publicamente os crimes de Stálin para não "desesperar o operariado" francês e não fortalecer o "discurso imperialista" dos EUA durante a Guerra Fria. Mesmo após a chamada de atenção pública de Merleau-Ponty ante a sua negação absurda, Sartre respondia que, apesar dos crimes, o lado soviético ainda representava a "causa do proletariado" e que não havia alternativa fora dele. Essa postura de cegueira voluntária priorizava a eficácia política em detrimento da verdade moral, levando-o a continuar a defesa da URSS mesmo após as revelações de Kruschev em 1956.
Guardadas as proporções, o sistema de derretimento de máscaras continua ainda hoje. Nas últimas semanas estamos assistindo à esquerda militante sair às ruas para defender o ditador Nicolás Maduro. No dia 5 de janeiro, movimentos sociais e sindicatos realizaram em São Paulo um ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos para criticarem a prisão de Maduro. Os manifestantes pediram a soltura do ditador venezuelano, classificando a ação norte-americana como um "sequestro" e um ataque à soberania daquele país. No dia 7 de janeiro, em Nova York, houve registros de grupos de manifestantes em frente à prisão federal no Brooklyn, onde o bigodudo se encontra detido, protestando contra a "justiça imperialista". Em 10 de janeiro, um protesto pró-Venezuela e anti-Estados Unidos percorreu o centro da cidade de Roma (da Piazza dell Esquilino à Via Bissolati), com cerca de 1.000 participantes defendendo a soberania do país sul-americano e criticando o fascismo de Trump.
Com relação a Ali Khamenei, as defesas do ditador iraniano se dão de forma mais tímida, com o "silêncio necessário", muito parecido com aquele de Sartre. A BBC londrina foi criticada por iranianos e comentaristas pró-Ocidente por silenciarem ou darem míseros espaços em seus meios para a colossal manifestação contra a ditadura islâmica que está ocorrendo no Irã. Em Havana o governo comunista criticou a suposta interferência dos EUA para derrubar Khamenei, mencionando o ditador como símbolo de resistência. O silêncio ante um absurdo só pode ser duas coisas: medo de ser rechaçado pela turba do qual faz parte; ou concordância covarde e envergonhada com os crimes que precisam ser denunciados.
Fato é que, se havia qualquer resquício de dúvida teimosa sobre o que, de fato, a esquerda mundial defende, as duas últimas semanas foram propícias para deixar pelado o militante. Até o mais rematado fiel da igreja progressista não pode mais negar que a ditadura é o fim último de qualquer visão à esquerda; o controle supremo, em busca de uma imposição de ideias, faz ajuntar ideólogos a fideístas, comunistas e islâmicos; e se o método é encarcerar opositores e dominar com discurso único, tantos os militantes de pantufas de unicórnios, quanto os soldados com fuzil AK-47 estão a postos para garantir o poder dos tiranos.
"Democracia", "liberdade" e "direitos humanos", hoje são claramente termos sem substância, ontologicamente ocos. A mim é claro que os socialistas dizem defender aquilo em que não acreditam, a fim de conseguir impor aquilo no qual realmente creem: a ditadura.
Para os sensatos, o exercício da semana é relativamente fácil e prazeroso: expor sob o sol do meio-dia todos que dizem defender a liberdade, a democracia e os direitos humanos, mas que abertamente defendem ditadores.
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