Nota de falecimento
A nação, ou ao menos a parte moralmente sadia da República, aquela que se importa com honradez e integridade, sentiu-se esbofeteada duas vezes na noite desta quinta-feira. O primeiro tabefe veio do Ministério Público, este ente tão importante que, sob a condução de Paulo Gonet, caminha a passos largos para a irrelevância e o servilismo aos donos do poder. É bem verdade que pouco se esperava de Gonet, a apática figura que se tornou procurador Geral da República por ter sido sócio do grande caudilho do STF, o ministro e businessman Gilmar Mendes .
Gonet já havia dado mostra de sua tibieza ao rejeitar pedido de investigação sobre o insólito contrato de R$ 129 milhõe s que o escritório jurídico da família do ministro Alexandre de Moraes firmou com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro e alvo da Polícia Federal por um golpe financeiro cujo montante ascende a mais de R$ 40 bilhões. Na quinta-feira, porém, o PGR fez algo ainda mais grave que o de acobertar um caso de possível compra de lobby no coração da suprema corte brasileira.
Decidiu o procurador que não há razão para afastar o ministro Dias Toffoli da condição de relator e condutor do processo relativo à liquidação do Master no Supremo, apesar de todas as revelações trazidas pela imprensa brasileira sobre as ligações de irmãos e de um cunhado do ministro - e dele próprio - com um resort de luxo, o Tayayá, localizado no bairro Laranjal, em Ribeirão Claro (PR). As participações dos Dias Toffoli no resort, ou em nome deles, foram transacionadas com fundos que estão na mira da Polícia Federal por, inclusive, suspeita de participação em negócios que, segundo a Operação Carbono Oculto, se prestavam a lavagem de dinheiro do PCC.
A segunda bofetada partiu do presidente da corte, Edson Fachin, que em nota impregnada de um palavrório vazio tentou atribuir "regularidade" à atuação do tribunal e resgatar a cantilena de "defesa da democracia", entre outras patacoadas. "Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito", escreveu.
O STF, senhor Fachin, já está desmoralizado. Enlameou-se antes de sua nota, por condutas inaceitáveis aos olhos do homem comum que ganha a vida com honestidade, e chafurdou de vez no descrédito popular depois deste texto que, inacreditavelmente, leva a assinatura do presidente do Supremo Tribunal Federal.
Infame quinta-feira, a que vivemos esta semana .
É a festa do cinismo. E o funeral da suprema corte. Quiçá do parlamento, se o Senado não instaurar processos de impeachment contra ministros que, estes sim, corroem a autoridade moral do STF.


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