Os palácios vão desabar
Na sexta-feira de Carnaval, acordei com a inesquecível Clara Nunes soprando, em minha memória, os versos alentadores de As forças da natureza, relíquia de Paulo César Pinheiro e João Nogueira. A voz da mineira filha de Ogum com Iansã despontava nos anos 70 como um doce brado de anunciação da liberdade que estava por chegar e a reconquista do poder pelo homem do povo - o ser que um burocrata petulante e afetado, que vestia toga, andou chamando de " manés".
Na canção, dizia-nos ela, o sol iria se derramar "em toda sua essência pra combater o mal".
E o mar / com suas águas bravias / levar consigo o pó dos nossos dias / vai ser um bom sinal. / Os palácios vão desabar / sob a força de um temporal / E os ventos vão sufocar / o barulho infernal. / Os homens vão se rebelar / dessa farsa descomunal / Vai voltar tudo ao seu lugar / Afinal.
Supremo Tribunal Federal já teve está se entredevorando - o que é um primeiro passo para a grande depuração institucional do Brasil.
Prenúncio de chuva boa para lavar nossa terra. E nossas supremas togas. Pensei, ainda meio que dormindo, ou sonhando, na redenção de todas as vítimas da sórdida orquestração jurídico-política que desde 2019 amalgamou um partido autoritário e uma suprema corte cooptada para desumanizar e perseguir brasileiros de ideias conservadoras e, a um só tempo, abrir caminho para a rapinagem da coisa pública.
Talvez esteja incorrendo em um otimismo delirante, o tal wishful thinking, mas pouco antes de ir dormir, na quinta-feira, soube com enorme prazer que a pior composição de ministros que o Supremo Tribunal Federal já teve está se entredevorando - o que é um primeiro passo para a grande depuração institucional do Brasil .
Por obra de seus próprios pares, um ministro, Dias Toffoli, foi saído da relatoria do processo relativo ao escândalo do Banco Master e, se o estado de direito for restituído, será investigado por suas ligações com um caso que liga os altos poderes da República, inclusive o Judiciário, a negócios com suspeitas de envolvimento do crime organizado. Outro ministro, Alexandre de Moraes, tem explicações a dar sobre um indefensável contrato de R$ 129 milhões que sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, celebrou com o Banco Master para fazer, à falta de outra explicação, lobby conjugal com aparência de serviço jurídico . Há dois meses Moraes emudeceu a respeito.
No meio de tudo, o presidente da República, também encrencado, chama ao Palácio o Procurador Geral da República. E o PGR vai. Por quê, para quê? Nem às paredes confessa. O Ministério Público definha sob a atuação parva, e servil, de Paulo Gonet . O Congresso está sequestrado. O STF, desmoralizado. Os donos do poder estão perdidos, de armas na mão.
E o povo? Conte-nos, Clara.
Das ruínas um novo povo vai surgir / e vai cantar afinal. / As pragas e as ervas daninhas, / as armas e os homens de mal / vão desaparecer / nas cinzas de um Carnaval.


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