O diesel e os propinodutos
Em 1952, na Bahia, Getúlio Vargas espalmou a mão direita coberta de óleo e, com um sorriso, exibiu para os fotógrafos o que se tornaria o símbolo emulador do slogan " O Petróleo é Nosso", campanha que culminaria com a criação da Petrobras um ano depois. O gesto seria repetido por Lula em 2008. Com as duas mãos espalmadas, tingidas pelo primeiro óleo retirado da camada de pré-sal na bacia do Espírito Santo, Lula levitava de euforia. A boa sorte o contemplara com o privilégio de ostentar a faixa presidencial no momento em que aflorava o resultado de décadas de pesquisa da Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas.
Hoje, 23 anos depois de iniciar o primeiro dos cinco governos petistas, e prestes a tentar um sexto triunfo, Lula já não pode exibir as mãos espalmadas de orgulho e óleo. Suas mãos estão vazias de respostas ao brasileiro que o ouviu falar tantas vezes em "soberania energética" e descobre que acreditou em um engodo.
Com o pré-sal, o Brasil de fato se tornou autossuficiente e até exportador - de óleo bruto. Mas segue sendo um grande importador de derivados fundamentais. Dependemos do exterior para conseguir de 25% a 30% do diesel que move a economia brasileira, e é por isso que, mais uma vez, o país está vulnerável à escalada de preços e ao colapso do abastecimento, a depender dos desdobramentos da guerra no Oriente Médio. A realidade é que nas últimas décadas a capacidade de refino do Brasil parou no tempo. E não foi por falta de dinheiro.
O ensaio "A ineficiência do investimento em refino da Petrobras nos anos 2000", publicado em 2022 pela FGV-Ibre, mostrou que entre 2003 e 2015 a estatal investiu nada menos do que US$ 100 bilhões em refino - tudo isso para acrescentar apenas 400 mil barris/dia ao parque nacional de refino. Para se ter uma ideia, no período entre 1954 e 1999 o Brasil investiu muito menos, US$ 24,7 bilhões, para instalar uma capacidade nacional de refino muito superior - de 2,03 milhões de barris/dia. Conclusão de Adriano Pires, Luana Furtado e Samuel Pessoa, os três economistas da FGV: "A efetividade relativa foi 20 vezes maior nas primeiras décadas" - isto é, entre 1954 e 1999.
Por que ainda não nos tornamos capazes de refinar o abundante petróleo que produzimos e até exportamos? Desnecessário lembrar que, além de incúria, a corrupção é parte da explicação para o fracasso. Ainda está em nossa memória a ilustração de propinodutos escoando dinheiro, aquela arte que o Jornal Nacional criou, na década passada, para mostrar aos brasileiros, a cada dia, as imundícies descobertas pela Operação Lava-Jato.
Más escolhas têm seu custo. E, mais uma vez, a conta está chegando.



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