O lobby e o "lobby"

 

Quando a filha do Alter apareceu com a ideia de cursar "Relações Governamentais", meu amigo tirou os óculos e se remexeu na cadeira. "Por quê, minha filha?" A garota tinha pesquisado carreiras. Viu como grandes empresas abrem espaço para advocacy. Assessoria jurídica?, quis saber o Alter. "Não, pai. Advocacy é mais legal, é defender uma ideia, uma causa, sabe?" O pai lembrou que empresa sobrevive de lucro, não de causa. Ora, argumentou a moça, lucro e causa são coisas ligadas. Silêncio. Ele recolocou os óculos. "Minha filha, você tá querendo ser lobista, é?" Acabou o diálogo. Ela fechou a cara para o que considerou um "preconceito" do pai. Alter se culpou: teria podado um sonho? Eu tratei de dizer que, talvez, ela o compreendesse melhor quando lesse com atenção o noticiário.

Chamar alguém de lobista já foi ofensa no Brasil. Até que, em 2007, um projeto tentou criar um cadastro nacional de profissionais que, de forma legítima, representam interesses privados ou setoriais diante de parlamentares e gente de governo. O trâmite parou no Senado. Em 2021, o governo enviou ao Congresso um projeto para endurecer as regras de transparência. Lobistas seriam obrigados a fazer um registro de todos os detalhes de suas reuniões e audiências. A lupa estaria colocada sobre oferecimento de gentilezas e presentes, o território cinzento que pode levar ao crime de tráfico de influência. Aprovado na Câmara, o projeto travou no Senado. Não é difícil compreender por quê. Nas sombras, é possível a corruptos e a corruptores transações como as que, hoje, estarrecem os brasileiros.


Antônio Camilo Antunes, o "Careca do INSS", tomou de assalto o noticiário em 2025 como o "lobista" que construiu uma teia de fraudes contra aposentados e pensionistas em montante superior a R$ 6,5 bilhões. Um caso ainda mais constrangedor para lobistas de mãos limpas, que lutam para desvencilhar sua atividade de práticas criminosas, é o contrato de R$ 129 milhões que o escritório jurídico da família de Alexandre de Moraes, um ministro da Suprema Corte, firmou com o Banco Master, cuja liquidação escancarou os métodos que o seu CEO, Daniel Vorcaro, empregava para aliciar figurões da República. No STF, há outro ministro, Dias Toffoli, implicado nas apurações policiais em curso. Contra Moraes, pesa a suspeita da PF de que seja o destinatário da desesperada mensagem que Vorcaro enviou em novembro, pouco antes de ser preso. "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?"


Os dois escândalos, Master e INSS, estão tragando nomes de familiares de Lula; ex-ministros e atuais ministros do presidente da República; presidentes de grandes partidos, como PP e União Brasil; e muitos outros poderosos.


Como já foi dito, sobre transparência, a luz do sol é o melhor
desinfetante.

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