Precisamos falar do Banco Central

A inacreditável história de um banquinho que representava meio por cento dos ativos financeiros do país, mas conseguiu dar um desfalque de mais de 40% em um fundo mantido por todos os bancos brasileiros, é uma desilusão para quem, em boa fé, festejou a autonomia conquistada pelo Banco Central em fevereiro de 2021.

A lei complementar 179, que garantiu para seu presidente e seus diretores mandatos de 4 anos que transcendem o mandato do presidente da República, foi saudada com base na premissa de que a autoridade monetária é um colegiado técnico. Desvinculado do Ministério da Economia, estaria protegido de pressões políticas para exercer o papel de guardião do valor da moeda e regulador do sistema financeiro com "independência", e as aspas são usadas porque não é este o termo empregado pela lei.

Em novembro do ano passado, com a liquidação do Master, a prisão de seu CEO e sobretudo a revelação de quem estava na tentacular folha de pagamento de Daniel Vorcaro, começou a escancarar-se, à vista de todos, a distância entre fantasia e realidade. Distância que não pára de aumentar a cada nova descoberta.

Na semana passada, informações oriundas de quebras de sigilo do Master, determinadas pela CPI do Crime Organizado, revelaram que entre 2024 e 2025, quando já enfrentava dificuldades, o Banco Master pagou a Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos governos Lula 1 e Lula 2, um total de R$ 18,5 milhões por serviços de consultoria. Outro ex-presidente do Banco Central que fez parte da lista de orientadores de Vorcaro, entre 2022 e 2025, foi Gustavo Loyola, titular da consultoria que leva seu nome. Goiano, como Meirelles, Loyola comandou o Banco Central em duas gestões, durante os governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Recebeu, por seus préstimos ao Master, R$ 6,7 milhões.

Não se sabe, ao certo, ao menos por ora, os conselhos que proferiram e as gestões que possam ter feito, em favor do Master, dois dos mais requisitados ex-presidentes do Banco Central. Talvez o próprio Daniel Vorcaro venha a contar por que os contratou e pelo que, exatamente, fez pagamentos de tais magnitudes. Certo é, de todo modo, que no período referido Vorcaro avançou impávido em ações que resultaram no maior golpe financeiro já visto no país e infligiu ao BRB uma crise de liquidez que ameaça levar o banco público do Distrito Federal ao colapso. Não é uma página gloriosa na biografia de ex-chefes da autoridade monetária brasileira.

Diga-se, para não cometer injustiça, que o rastilho das ligações potencialmente perigosas entre gente do Banco Central e do setor privado vem lá do final dos anos 80, quando Daniel Vorcaro ainda era uma criança.

Eugênio Esber


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