“Fogo nos racistas”?

Quem defende esse tipo de frase acaba validando e retroalimentando discursos de ódio e violência.

Leio, muitas vezes, a expressão “fogo nos racistas”. Quem defende esse tipo de frase acaba validando e retroalimentando discursos de ódio e violência. Quem não deseja violência contra si também não deveria defender violência contra os outros.

Ou se defende a legalidade, ou se defende uma guerra de tribos.

Eu sou a favor da legalidade.

Sou contra qualquer discurso de ódio — e “fogo nos racistas” é exemplo disso. Não defendo colocar fogo em ninguém. Esse discurso de “fogo em A” ou “fogo em B” apenas substitui um extremismo por outro e contribui para aumentar a radicalização, a desumanização e a lógica da vingança.

Os militantes tentam dizer que não é bem assim. Eis uma fala bem recorrente: “O fogo nos racistas não é uma expressão literal. Do ponto de vista social, reflete, mais ou menos, uma postura que a vítima deve ter diante da violência. Pode-se reagir à violência de várias formas. Inclusive repelindo a agressão sendo agressivo.”

A tentativa de relativizar esse tipo de frase, dizendo que ela “não é literal”, também revela um problema perigoso. Discursos violentos raramente começam de forma literal. Quase sempre surgem primeiro como metáfora, slogan, catarse emocional ou licença moral para hostilidade.

O ponto central não é saber se alguém realmente pretende colocar fogo em outra pessoa. O problema é a normalização de uma linguagem que transforma seres humanos em alvos morais aceitáveis de agressão, humilhação ou eliminação simbólica.

Quando uma sociedade passa a tolerar esse tipo de retórica porque o alvo “merece”, ela abre espaço para que qualquer grupo faça exatamente o mesmo contra seus adversários.

Além disso, a justificativa usada para defender “fogo nos racistas” poderia ser usada para relativizar praticamente qualquer frase extremista. Imaginem agora a expressão “bandido bom é bandido morto”.

Imaginem alguém dizendo: “O ‘bandido bom é bandido morto’ não é uma expressão literal. Do ponto de vista social, reflete, mais ou menos, uma postura que a vítima deve ter diante da violência. Pode-se reagir à violência de várias formas, inclusive repelindo a agressão sendo agressivo.”

Percebem o problema? Quase todo discurso agressivo pode alegar que é “metafórico”, “emocional”, “social” ou “uma reação à violência”. Mas uma sociedade civilizada precisa justamente impedir que a lógica do ódio seja aceita como linguagem política normal — independentemente de quem a utilize.

Alguns poderão acusar este texto de falsa equivalência. Não é disso que se trata. O racismo possui gravidade histórica, moral e social própria. O ponto aqui é outro: nenhuma causa justa se fortalece quando adota a lógica da desumanização e do discurso de ódio.

O que defendo para racistas é:

1. Holofote e exposição pública e honesta dos fatos;

2. Investigação policial séria, com igual seriedade, honestidade intelectual e isenção do MP e do Judiciário;

3. Devido processo legal, ampla defesa e contraditório;

4. Aplicação das penas previstas em lei;

5. Reeducação antirracista.

Combater o racismo com mais ódio não elimina o problema. Apenas perpetua a lógica da violência.

Martin Luther King Jr. compreendia isso profundamente. Foi ele quem disse: “A escuridão não pode expulsar a escuridão; só a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio; só o amor pode fazer isso.”

Também afirmou: “Devemos desenvolver e manter a capacidade de perdoar. Quem é desprovido da capacidade de perdoar é desprovido da capacidade de amar.”

E ainda: “Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a simples arte de viver juntos como irmãos.”

No discurso I Have a Dream, ele também alertou: “Não devemos procurar satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.”

Talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja justamente esta: pessoas que dizem combater o preconceito acabam, muitas vezes, reproduzindo a mesma lógica de intolerância que afirmam enfrentar.

A luta contra o racismo precisa ser firme, séria e intransigente — mas não pode abandonar a humanidade, a legalidade e os princípios morais que justificam essa própria luta.

Que o leitor retire do seu vocabulário — e também da sua alma — ideias de colocar fogo em pessoas, desejar sua morte ou tratar seres humanos como inimigos absolutos.

Em lugar disso, que ajude a construir “um Estado Democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica das controvérsias”.

É assim que começa a Constituição da República Federativa do Brasil.

E talvez seja exatamente por aí — pela recuperação da humanidade, da legalidade e da solução pacífica dos conflitos — que possamos começar a reduzir a polarização que está destruindo nosso país.

William Douglas é professor de Direito Constitucional, pastor batista, escritor e mestre em Direito.

Pleno News

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