Vorcaro, o grande sociólogo

"Saiu exatamente como mandei", teria dito Vorcaro, animado, quando viu publicada a "emenda Master", apresentada por Ciro Nogueira no Congresso e que aumentaria o limite do FGC para um milhão de reais. É difícil exagerar na gravidade de um fato como este. Um senador faz, a pedido de um banco, uma proposta inteiramente estapafúrdia, com potencial de ferir gravemente o sistema de crédito no país. A revelação não é lá uma grande novidade, mas nos leva a uma constatação bastante constrangedora: Vorcaro não é apenas um banqueiro fraudador, mas um fenômeno sociológico. Seus tentáculos alcançaram os três Poderes da República, com relativo sucesso. E isto não é pouca coisa.

PF faz buscas contra Ciro Nogueira em nova fase da operação que apura crimes do Master e de Vorcaro.

Os fatos são conhecidos. Além do braço legislativo, há o Banco Central. Um diretor com mandato, em uma instituição federal independente, além de um chefe de supervisão bancária. Na esfera do Executivo, havia um ex-ministro fazendo "aproximações". Chegando, sem maiores dificuldades, a encontros fora da agenda com o presidente da República. No Supremo, impressiona a incrível proximidade. Os charutos, as viagens, o whisky Macallan, os voos de jatinho, a compra das ações, a contratação de familiares. Tudo que, por alguma razão, vamos considerando "aceitável", à medida que o tempo vai passando, a roda da política vai girando e a indignação difusa vai ganhando certo ar de cansaço.

Não acho que Vorcaro tenha lido nenhum de nossos clássicos, mas parece ter compreendido bastante bem nossa velha tradição patrimonialista. Percebeu a zona cinzenta em que o público e o privado se encontram. O reino dos eventos de luxo, mundo afora, reunindo políticos, ministros e empresários. Espaços em que se pode fazer "aproximações" e tudo se resolve, entre um jantar e outro, porque isto faz parte do "jogo", como um dia escutei de um animado figurão.

Quem sabe Vorcaro tenha sido uma versão algo grotesca de nosso "homem cordial". O tipo que sabe que o poder é vulnerável. Sabe que a "frieza da regra" não é exatamente o nosso forte. E que o melhor é apostar na "pessoalidade". No seu caso, uma pessoalidade paga a preço de ouro, envolvendo festas em Trancoso, contratos milionários e noites de charme em Campos do Jordão. Seu erro, sabe-se lá, talvez tenha sido confiar demais em sua própria rede de poder. Sua frase-síntese, pendurada no ar: "E aí, conseguiu bloquear?". Um dia, quem sabe, vamos entender o que aquilo significa, exatamente. Talvez ele tenha alimentado expectativas além da conta. Confiado que aquela proximidade adquirida pudesse desbloquear alguma coisa na estrutura do poder. Mas acabou no xilindró. Ou quem sabe tudo isso ainda será devidamente "resolvido", como manda nossa boa tradição, no tempo certo.

O processo como um todo se aproxima do momento crítico. Se fizer uma delação "controlada", dizendo não muito mais do que os investigadores já sabem, é possível que ela seja descartada. Mas, se fizer uma delação completa, que atinja o núcleo do poder, a pergunta é simples: isto seria aceito?

O ex-ministro Pedro Parente escreveu um ótimo artigo, por estes dias, observando como muita gente boa e "respeitável", país afora, topou atuar junto com Vorcaro. Vender CDBs a 130%, prestar serviços de "consultoria jurídica e institucional" para um banco fraudulento, sem fazer perguntas inconvenientes. Parente diz esperar que nossas autoridades tratem com rigor dos "vilões". De minha parte, sou menos otimista. Como já escrevi algumas vezes, há um sistema de poder bem estruturado em Brasília. E sua essência é a possibilidade de fazer exatamente o que não deveria ser feito em uma República: o uso do poder para ajustar a regra do jogo.

Ainda esta semana, escutava um ministro influente sugerindo, sem muito constrangimento, que um certo "nós" já havia definido que é preciso dois terços de votos, no Senado, para abrir um processo de impeachment contra ministros do Supremo. É só ler a regra geral estabelecida no art. 47 da Constituição, e a legislação pertinente, para saber que o quórum exigido é de maioria simples. E que dois terços é para uma eventual condenação. É só um detalhe. Como quase tudo, é só um detalhe. Nossos donos do poder fazem isso pela razão simples de que podem fazer. Porque têm apoio no mundo jurídico e intelectual. Porque alimentamos uma visão seletiva sobre a ética pública. E por aí vamos levando.

De todo modo, é preciso prestar atenção. Vorcaro não deixa de ser, por curioso que pareça, o peixe pequeno de toda esta história. O teste real é se a ampla esfera de poder em que ele ancorou sua ascensão meteórica, no coração de nossa república patrimonialista, sairá ou não intacta disso tudo. É esta, lá no fundo, a pergunta que devemos nos fazer.

Fernando Schüler

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Elon Musk cria site para expor ao mundo os “crimes de Moraes”

Militares querem receber como policiais: veja o que o STF decidiu

CPMI do INSS pode ser maior que a Lava Jato e o Mensalão