CAMPEONATO DO MUNDO, COPACABANA E FELICIDADE

 

Em 29/06/1958, o Brasil venceu a Suécia (final da copa), sagrando-se por primeira vez campeão mundial. Três dias depois, Antônio Maria publicou esta crônica, que hoje é parte do livro "Crônicas de Antônio Maria", Editora Paz e Terra - 1996, p. 37.

O futebol brasileiro só voltaria a ser futebol quando acabasse a era do endeusamento de um técnico, criador de táticas e sistemas; quando o futebolista nacional pudesse, outra vez, dar o máximo, ser uma força livre, para se inspirar ante cada lance de partida. De 1938 para cá, isto é, de Ademar Pimenta até a canonização de Martim Francisco, os preparadores de equipes foram deuses, cujo culto durava uma semana ou uma vitória - deuses que se substituem na louvação da crônica esportiva e na fé quase religiosa do público.

No futebol brasileiro, houve época em que não existia o grande jogador, nem a equipe mais poderosa. Havia um técnico que era um todo-poderoso e, como tal, estivesse onde estivesse, haveria vitórias. Ah, os sistemas! Quanta palavra gasta, quanto espaço de jornal, quanto minuto de rádio para discutir chaves e táticas. E, durante esse período estratégico, perdemos, no plano internacional, todas as partidas que precisávamos ganhar. Perderam os cariocas, muito mais escravos do técnico que os paulistas, quase todos os jogos Rio-São Paulo.

É verdade que vencemos esta Copa do Mundo porque possuíamos uma grande equipe. Mas sempre tivemos grandes equipes. O que nos vencia não era o quadro adversário e sim a inibição dos nossos atletas, cada um com o seu espaço limitado para correr, cada um com a lição decorada sobre como e onde chutar. Abrindo mão de sua celebração pessoal, Feola fez com que o futebol brasileiro rendesse a sua força verdadeira e nos deu este campeonato, certamente o mais importante de toda a longa história da Coupe du Monde. Daqui para a frente, se insistirmos na tecla do técnico-deus, voltaremos depressa aos selecionados do Zezé Moreira, que só perdiam e empatavam e jamais fizeram três gols em adversário algum. Zezé achava cafajestada vencer além de 1 x O. Antes empatar ou perder.

Linda, a tarde de Copacabana, no dia da vitória! Não me lembro de ter visto outra demonstração coletiva de alegria nacional. Ou vi, na Bahia, em 1945, quando foi assinado o armistício e o povo foi, em massa, cantando e dançando, carregando água, flores e extratos, para lavar a Igreja do Bonfim. De lá para cá, só vi povo reunido em casos de consternação, como nos enterros de Francisco Alves, Getúlio Vargas e Carmem Miranda.

Tão cedo não se repetirá um domingo como foi o de Copacabana, desde que começamos a ganhar de 2 x 1. Homens e mulheres, de mãos dadas, amavam-se sem se conhecer.

Inimigos se perdoavam e se abraçavam felizes, pelas ruas e calçadas. Confesso que tive medo de encontrar os meus desafetos e, num arroubo, abraçar e ser abraçado.

Que é que iria fazer, na segunda-feira, com eles outra vez na minha intimidade? Graças a Deus, não os vi e saí das comemorações com o mesmo e prezado número de inimizades do meu dileto acervo.

Copacabana estava clara e ruidosa. As ruas sempre foram sujas, mas estavam sujas de branco, porque atiraram papéis das janelas, e, de branco, forraram o asfalto onde o povo dançava. Em todos os homens, descobria-se a impressão de que se sentiam subitamente sem culpas e sem remorsos. Todos se haviam perdoado em si mesmos e se acreditavam perdoados pelo próximo, que passava a cantar.

Nos olhos da amiga, a plenitude feliz da vida completada. Ela, que algumas vezes fora lúcida e triste e quase sempre lúcida da maior orfandade, tinha então o rosto como de uma prima, na tarde distante de um engenho, que não ficou especialmente em Pernambuco, mas no passado. O domingo exaltado de Copacabana oferecia a cada um a oportunidade de viver a alegria, dali por diante. Mas isto seria impossível, porque no Destino os acontecimentos sabem muito pouco a campeonatos do mundo.

Muitas coisas engraçadas pelas ruas. Começaram a aparecer listas. Uma delas arrecadava dinheiro para os filhos de Pelé. Quando o assinante, afirmava que Pelé não tinha filhos, o dono da lista argumentava:

- Não tinha, até agora. Mas depois desses dois gols vocês vão ver.

Outra lista engraçadinha, a que colhia donativos para a viúva do Belini. E como Belini está mais vivo que nunca, vinha a argumentação de que Belini, como qualquer cidadão do mundo, tem direito a uma viúva. E todos contribuíam um pouco para a viúva do Belini. Essas listas corriam as mãos do povo (e todos sabiam disso) para que fosse possível comprar mais aguardente e cerveja. Era justo que todos bebessem. A vida estava linda, transitoriamente linda, -e dali a pouco cairiam em sua sombra costumeira. Todos voltariam a sentir o cansaço anterior, à medida que se fossem habituando com a novidade de sermos campeões do mundo.

Então, cuidou-se de beber e comer o mais possível. Era uma bonança ver ou imaginar pessoas de caixas altas e baixas com um motivo só de alegria. Exemplo: Walter Moreira Salles, Emiliano di Cavalcanti, Jarbas Alves Barbosa, Augusto Frederico Schmidt, o cronista Braga, Joel Paiva Cortes, João Condé - todos e eu, eu e Daniel Tolipan, numa tarde de patriotismo acima do amor! Um bêbado passou vociferando: "Ah, se eu encontrasse um sueciano!".

2/7/1958, Antônio Maria - Editora Paz e Terra - 1996, p. 37.


O futebol não é mais o mesmo. 


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