Eduardo Bolsonaro, o Pix e a notícia que não parou em pé
A cobertura sobre o Zelle expôs como manchetes alarmistas podem sobreviver mesmo quando a entrevista desmente a tese.
Na semana passada, as redes digitais foram tomadas pela notícia de que Eduardo Bolsonaro propunha a substituição do Pix por um sistema de pagamentos chamado Zelle, que opera nos Estados Unidos. A rajada de alertas nos telefones celulares conduzia a textos publicados por diferentes veículos - de jornais, como Correio Braziliense e O Globo (edição digital), a portais de informação como Metrópoles, Infomoney e Exame, os dois últimos especializados em assuntos de economia e finanças. Logo, um vídeo publicado por Eduardo Bolsonaro condenava o que chamou de "patifaria" da imprensa a partir de notícia falsa de O Globo replicada por outros veículos.
De imediato, eu já havia notado, na cobertura, o tom alarmista típico de conteúdos que se tornam ou pretendem se tornar virais na internet. E em um ou outro texto que acessei era patente que os elementos trazidos não sustentavam, objetivamente, a carga de assertividade propagada nos títulos e chamadas que, por natureza, buscam fisgar a atenção do público. Mas diante do termo "patifaria" decidi ver, por mim mesmo, quem falava a verdade. Em favor de Eduardo, um dos perseguidos pelo regime STF-PT, e hoje exilado nos EUA, contava o fato de que, em seu vídeo, ele desafiara a imprensa a publicar a íntegra do vídeo da entrevista que concedera à TMC News.
Em meu artigo na revista Oeste, relato, palavra por palavra, a pergunta que o apresentador do "TMC 360" fez ("O Pix está ameaçado?") e a resposta de Eduardo, que durou dois minutos. E, sim, o membro do clã Bolsonaro mais próximo de Donald Trump tem todas as razões para reclamar da cobertura dada às suas declarações. Ele não "propôs", "defendeu" ou "sugeriu" a "troca" ou "substituição" do Pix pelo Zelle, nem deu margem para esta conclusão. Sua citação ao Zelle, até então desconhecido para muitos, ilustra o que verdadeiramente está em questão. Os EUA não são contra um método de pagamento instantâneo como o Pix, até porque também têm o seu. O que o Escritório de Comércio dos EUA critica em seu relatório é o fato de o Banco Central ser, ao mesmo tempo, operador e regulador do sistema de pagamento instantâneo brasileiro, o que tornaria o Pix um "campeão nacional" privilegiado perante concorrência.
Eduardo disse esperar dos jornais e portais envolvidos na celeuma uma retratação. Que não veio - com a honrosa exceção do Poder360, que no dia 4 de junho publicou uma "Correção". Outros veículos modificaram suas notas sem admitir o erro. O Globo, nem isso: manteve a afirmação de que Eduardo havia sugerido a substituição do Pix pelo Zelle. Tampouco as agências de checagem se moveram para apontar o caráter enganoso das manchetes construídas sobre a entrevista do dia 3 de junho.
O jornalismo profissional e seu discurso de virtuosismo saem amesquinhados deste episódio.

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