Elon Musk, o trilionário, e o que podemos aprender com isto
Boa parte das pessoas parece não saber fazer a distinção básica entre a riqueza que é feita pela inovação e a riqueza que é fruto do truque ou da captura do Estado.
"A distribuição não vem sendo igualitária", escuto em um comentário, sobre o aumento da riqueza dos bilionários, mundo afora. E em especial sobre Elon Musk, nesta última sexta-feira consagrado como nosso primeiro trilionário global. Sempre acho graça quando escuto estas coisas.
Por que cargas d'agua a distribuição do dinheiro do Elon Musk deveria ser igualitária? Em primeiro lugar, ninguém está distribuindo nada. As pessoas investem na SpaceX porque querem ganhar mais, logo ali à frente. Alguns compram por fetiche, para dizer que são sócios do Musk. Mas é uma minoria. A maior parte acredita mesmo no negócio.
Na abertura do IPO, Musk disse que só dava 10% de chances de sobrevivência, no início da empresa. Hoje ela é líder absoluta da corrida espacial. Tem a maior constelação de satélites em órbita e mais de 50% dos lançamentos espaciais do planeta. E faz isso não porque tem amigos em Washington (o que não seria difícil), por causa da "desigualdade global", ou porque "as regras do sistema favorecem", como escuto no besteirol midiático. Faz isso porque criou foguetes reutilizáveis. Que vão ao espaço, dão marcha ré e retornam suavemente à base de lançamento. E porque trabalham para fundar uma colônia com um milhão de pessoas em Marte até a metade do século. Foi por isso que este sujeito estranho criou a empresa, em 2002, indo a uma feira de foguetes amadores, na Califórnia. E reafirmou isso na sexta-feira, falando em uma humanidade "multiplanetária". E se alguém rir dessas coisas, sugiro que dê uma disfarçada. O sujeito que diz estas coisas acorda, por estes dias, com um trilhão na conta e - literalmente - um universo aberto de possibilidades à frente. De modo que o melhor é parar e quem sabe revisar alguns velhos preconceitos.
O fato é que há um conflito cultural subjacente sobre como lidar com o fenômeno da riqueza global e, em particular, com a proliferação dos bilionários, mundo afora. Boa parte das pessoas parece não saber fazer a distinção básica entre a riqueza que é feita pela inovação e a riqueza que é fruto do truque ou da captura do Estado.
Diria que há duas visões predominantes: uma olha a vida de Elon e vê um tipo schumpeteriano. Um empreendedor serial que aposta tudo na inovação tecnológica e gera valor em grande escala. E faz o planeta andar para frente. Na outra visão, Elon é um vilão. Ele "acumula" dinheiro. Algo como se houvesse um volume mais ou menos fixo de riqueza no mundo, de modo que se alguém fica com um pedaço muito grande, como Musk, irá faltar para os "de baixo". E por isso esta gente rica e ruim deve ser combatida.
O próprio Lula expressou uma ideia dessas semanas atrás, no Forum das esquerdas, em Barcelona, dizendo que os "verdadeiros culpados" dos males do mundo eram os "bilionários que concentram a riqueza", exploram os trabalhadores e não deixam os outros subirem na vida.
O problema desta tese é que ela parece não bater com a realidade. Apenas o IPO da Space X fez mais de quatro mil "trabalhadores" da empresa milionários, em dólar, de uma hora para outra. Dos 10 bilionários à frente na lista da Forbes, todos, sem exceção, são superempreendedores. Nenhum fez seu dinheiro capturando algum monopólio ou recebendo favores de governos.
Amâncio Ortega, o décimo da lista, começou a vida como vendedor de camisas, em uma loja de La Coruja, na Espanha. Jeff Bezos, meu exemplo favorito, largou um emprego bacana, em Nova Iorque, abriu um site de vendas online com o nome de um imenso rio brasileiro. Foi chamado de "louco", à época, e hoje comanda também a "Blue Origin", maior concorrente privada de Musk, na corrida espacial.
Outro caso interessante é o de um imigrante de Taiwan, Jensen Huang, que trabalhou lavando pratos e como garçon, no Oregon, e década e meia depois criou a Nvidia, hoje a empresa mais valiosa do planeta. Estas pessoas se tornaram multibilionárias não porque enganaram alguém ou "concentraram" a renda global. Elas criaram riqueza. Souberam fazer coisas capazes de melhorar a vida das pessoas - sejam camisas boas e baratas, livros online, antenas da Starlink ou buscadores de informação. Na prática, jogaram um jogo de ganha-ganha, e é por isso estão hoje naquela lista da Forbes. E sumirão dali, podem ter certeza, logo que novos empreendedores aprenderem a fazer coisas melhores, como de resto sempre acontece na história do capitalismo.
Na teoria dos "vilões", a lógica é oposta. "Um dia sombrio para a democracia", disse um dirigente da impagável Oxfam, ONG cuja lógica obsessiva é combater "bilionários". A frase é perfeitamente irresponsável. O sujeito acha que se as pessoas fossem impedidas de comprar ações da Space X, ou se o governo "capturasse" para si metade do dinheiro de Musk, isto seria bom para a democracia? Musk teria então meio trilhão e o governo mais dinheiro para gastar do jeito que conhecemos. Tudo com a suposição perfeitamente mágica de que um padrão de intervenção estatal como este não iria esfriar a disposição das pessoas - Musk à frente - para tomar riscos, empreender e investir.
Pela lógica da ONG, Musk deveria distribuir 10% do seu dinheiro para "aliviar a pobreza global por um ano". A pergunta prosaica a fazer é simples. Supondo que isto fosse verdade, o que faríamos com a pobreza no ano seguinte? Quem sabe distribuiríamos mais dinheiro, sabe-se lá de onde, para as pessoas? De minha parte, acho a filantropia sensacional e de fato boa parte dos bilionários americanos já assinou a "Giving Pledge", prometendo doar mais de metade de seu dinheiro. Mas não é isto que vai resolver o problema. O que de fato fez a pobreza efetivamente desabar, nas últimas décadas, foi exatamente o dinamismo econômico e a inovação tecnológica.
Em meados da década de vinte, cem anos atrás, havia não mais do que 20 bilionários, em valores corrigidos, mundo afora. O maior deles era John Rockefeller. A taxa de analfabetismo global girava em torno de 70%, e a pobreza extrema envolvia perto de 60% da população global. Cem anos depois, temos perto de 3,5 mil bilionários, segundo a lista da Forbes. A taxa de analfabetismo foi reduzida para 13%. E a pobreza para aproximadamente 10% da população.
A história contemporânea é feita do mesmo roteiro: a riqueza no topo aumenta, e a vida vai melhorando - e rápido - na base da pirâmide. Os melhores exemplos disso foram os dois países que mais reduziram a pobreza, nos anos recentes: China e Índia. A China reduziu a pobreza extrema virtualmente a zero, em quarenta anos, e viu seu plantel de bilionários sair de 0 para pouco mais de 400, ainda agora.
A Índia fez coisa parecida. Reduziu a pobreza de perto de 50% a menos de 5%, ao mesmo tempo em que viu seus bilionários saltarem de 3 para 229, ano passado. Isto ocorre porque a geração de riqueza e a redução da pobreza são dois lados do mesmo fenômeno de abertura e dinamização da economia. Podemos enfiar a cabeça em um buraco e fazer de conta que não enxergamos nada disso. Podemos ficar amaldiçoando Elon Musk, suas inovações, satélites e projetos espaciais. De fato, há um mercado retórico para isso. Mas, como País e como sociedade, não vamos muito longe com isso.
Quando leio sobre Musk, Bezos ou Jensen Huang, me lembro da antiga lição de Schumpeter. Em especial, de seu elogio do empresário inovador, o tipo que "nunca dorme tranquilo" e faz a máquina da "destruição criadora" do capitalismo andar à frente. Lembro também de sua visão algo sombria, reafirmada em um de seus últimos artigos, "A Marcha para o Socialismo", segundo a qual o capitalismo caminhava para o seu fim. E isto em função de um paradoxo: o capitalismo faz aumentar a produtividade e o bem-estar, mas também o crescimento de uma "casta" intelectual - acadêmicos, jornalistas e ativistas de todos os tipos. Um estamento que vive dos sucessos da economia de mercado, mas cada vez mais distante de seu processo real de produção. Gente que não entente, ou não quer entender, como é gerada a riqueza e a prosperidade que logo ali, abaixo da superfície, sustenta seu próprio modo de vida.
Schumpeter estava errado. O capitalismo não foi derrotado. Na verdade, ele vai vencendo o jogo, apesar de toda a carga retórica em contrário. Os sucessos de Elon Musk são apenas uma modesta, ainda que interessante demonstração disso tudo. Algo que pode nos trazer algum aprendizado, neste País que anda um pouco de lado, se tivermos a paciência de prestar atenção.






Comentários
Postar um comentário