AUDITORIA FLAGRA FUNCIONÁRIOS FANTASMAS EM TODOS OS ÓRGÃOS DO GOVERNO DO RIO; ESQUEMA BANCAVA DE POLÍTICOS A "BLOGUEIRA DIGITAL".
Uma investigação minuciosa da Controladoria Geral do Estado (CGE) revelou que o esquema de funcionários fantasmas na máquina pública do Rio de Janeiro era generalizado. Pela primeira vez, uma auditoria oficial confirmou que todos os 77 órgãos do funcionalismo estadual mantinham em suas folhas de pagamento comissionados classificados como de “alta criticidade” — jargão técnico para servidores que recebiam salários, mas não trabalhavam.
Para fechar o cerco, o governo do estado utilizou um cruzamento de dados implacável: rastreou quem não passava pelas catracas dos prédios públicos, quem nunca fazia login nos computadores oficiais e quem jamais acessou o Sistema Eletrônico de Informações (SEI), plataforma obrigatória para qualquer tramitação de documentos no Estado.
O resultado foi uma limpa na máquina pública comandada pelo governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto. Desde o fim de março, mais de 4.283 comissionados foram exonerados, gerando uma economia estimada em R$ 230 milhões até o fim do ano. Destes desligados, pelo menos 1.767 eram fantasmas confessos ou operavam sob forte suspeita, o que drenava R$ 15 milhões por mês dos cofres públicos.
O RAIO-X DO APADRINHAMENTO: QUEM SÃO OS SUSPEITOS.
A reportagem foi às ruas para identificar os beneficiários desse esquema. A investigação apurou que a esmagadora maioria dos suspeitos possui fortes ligações com deputados da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), ex-secretários de Estado ou clãs políticos municipais.
1. A "MISSIONÁRIA DIGITAL" DO TIKTOK.
Um dos casos mais emblemáticos ocorria na Secretaria estadual do Ambiente e Sustentabilidade (Seas). Bruna Castello Branco Costa Motta, conhecida nas redes sociais como a “blogueirinha de São Marcos”, estava lotada na pasta com um cargo comissionado (DAI-4). Enquanto acumulava 16 mil seguidores no Instagram e 50 mil no TikTok pregando como "missionária digital", Bruna embolsava salários do Estado.
● O flagrante: Documentos oficiais não registram uma única linha de serviço prestado por ela. No entanto, em seu perfil no LinkedIn, ela se apresentava falsamente como “Coordenadora de marketing em tempo integral do Governo do Rio”. Ao ser confrontada por telefone, Bruna simulou problemas de sinal até a ligação cair.
2. O CLÃ POLITIZADO DE PETRÓPOLIS.
Marcus Wilson Von Seehausen
A auditoria também expôs casos de nepotismo cruzado e apadrinhamento político na Seas e na Casa Civil. Marcus Wilson Von Seehausen e seu filho, João Antonius Von Seehausen, foram exonerados após os auditores constatarem que o pai (com salário de R$ 12,2 mil) nunca logou em um computador ou entrou na secretaria.
● O histórico: Marcus Wilson tem uma trajetória controversa: já foi investigado na Operação Furna da Onça, em 2019, suspeito de recolher propinas para o ex-deputado Marcus Vinicius Nescau. Ele chegou ao governo do Estado pelas mãos do ex-secretário Bernardo Rossi. O filho, João Antonius, após perder a eleição para vereador em Petrópolis, foi abrigado na Casa Civil com salário de R$ 10,3 mil.
3. O SUPERVISOR ESQUECIDO DA ZONA OESTE.
Marcelo Cabral D'AlmeidaMarcelo Cabral D'Almeida, filho do ex-vereador Marcelino Almeida, ocupava um cargo na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas com vencimentos de R$ 10.903,66.
● A contradição: Questionado sobre sua rotina, Marcelo afirmou que fazia "trabalho de campo" em praças da Zona Oeste. Porém, quando interrogado sobre quem era o seu chefe direto na pasta ou para quem enviava os relatórios de trabalho, ele foi categórico: "Nem lembro o nome da pessoa... tipo um supervisor". Ele admitiu que não possuía qualquer formação na área ambiental e que foi indicado pelo ex-secretário Bernardo Rossi.
ESTRUTURA DO ESTADO ERA USADA COMO MOEDA DE TROCA.
A investigação jornalística ligou os funcionários fantasmas das áreas extintas a redutos políticos específicos:
Léo Vieira● Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas (14 cargos extintos): A maioria das vagas era controlada pelos irmãos Vieira — Léo Vieira (prefeito de São João de Meriti) e Luciano Vieira (deputado federal). Entre os nomeados ali estava Sintilaine Alessandra de Souza Silva, cabo eleitoral da família Vieira. Ao ser localizada em São João de Meriti, ela acumulava um salário de R$ 9,2 mil do Estado com uma pensão por morte de R$ 494. Ela não soube dizer quais eram suas funções e declarou: "Não tenho nada a declarar".
● Subsecretaria de Conscientização Ambiental (37 cargos extintos): Era controlada pela vereadora Thamires Rangel, filha do deputado estadual Thiago Rangel — político que foi preso em maio deste ano em uma operação que investiga fraudes na Educação do RJ.
Thamires RangelSecretaria com Auditoria Concluída — Percentual de Redução de Comissionados:
● Secretaria de Trabalho — 78,6% de corte
● Secretaria de Esporte e Lazer — 75,6% de corte
● Secretaria de Turismo — 73,3% de corte
● Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia — 65,6% de corte
PRÓXIMOS PASSOS E PUNIÇÕES
Até o momento, 60 dos 77 órgãos estaduais já tiveram suas auditorias concluídas. Os relatórios individualizados com as fraudes já foram entregues aos atuais secretários. O secretário de Governo, delegado Roberto Lizandro Leão, e o secretário da Casa Civil, Flávio Willeman, estipularam um prazo imediato para os gestores executarem as demissões restantes.
Como punição administrativa, todos os servidores identificados como fantasmas entrarão em uma "lista negra" institucional e ficarão permanentemente proibidos de retornar ao serviço público estadual. Para evitar novos escândalos, o governo estuda a obrigatoriedade estrita de ponto eletrônico biométrico e travas digitais de login para todos os cargos de confiança.
O OUTRO LADO: O QUE DIZEM OS CITADOS.
● Bernardo Rossi (ex-secretário do Ambiente): Negou veementemente que houvesse fantasmas em sua gestão, afirmando que os servidores atuavam em vistarías e projetos de campo in loco, como o programa "Limpa Rio".
● Léo e Luciano Vieira: O prefeito e o deputado declararam que não fizeram nenhuma indicação política para as subsecretarias da Seas e que desconhecem os nomes citados.
● Márcio e Fred Pacheco: O deputado Fred Pacheco negou ter indicado a blogueira Bruna Castello Branco. O conselheiro do TCE, Márcio Pacheco, informou que aparece em fotos com Bruna apenas por sua atuação como cantor católico em eventos públicos, não mantendo qualquer vínculo pessoal com ela.
● Thamires Rangel: A vereadora contestou os dados da atual gestão, defendeu seu período à frente da subsecretaria e disse que sua atuação gerou resultados concretos para as regiões Norte e Noroeste do estado.
Texto extraído da internet.





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