CAPTURA SILENCIOSA DE UM ESTADO.

As grandes tragédias raramente anunciam a própria chegada.

Não chegam com fanfarras, folias ou bandeiras desfraldadas. Não atravessam fronteiras em colunas militares nem se apresentam em rede nacional. Quase sempre entram em silêncio, pelas portas dos fundos, carregadas por pequenos acordos, pequenas omissões, pequenas concessões e grandes covardias. São processos cuidadosamente construídos e introduzidos na sociedade por meio da chamada janela de Overton.

É assim que algumas nações começam a perder o controle de si mesmas.

Primeiro, o crime é apenas um problema de polícia. Depois, transforma-se em questão de segurança. Mais adiante, converte-se em fator econômico. E, sem que muitos percebam, acaba se tornando um elemento político.

Nada disso acontece de um dia para o outro.

As instituições continuam em seus lugares. Os tribunais permanecem abertos. As eleições acontecem. As bandeiras seguem hasteadas. Os hinos continuam sendo cantados. Tudo parece normal.

Existem países em que o Estado continua de pé, mas já não está sozinho. Divide espaços, compartilha territórios e tolera poderes paralelos. Em certos bairros, em certas comunidades, em certas fronteiras esquecidas, outras autoridades passam a determinar quem vive, quem trabalha, quem paga e, às vezes, quem morre.

O poder oficial permanece nos papéis. O poder real, porém, muda de endereço. A captura de um Estado nunca começa pelo palácio. Começa pelas frestas.

Uma propina aceita aqui.

Um inquérito arquivado ali.

Uma testemunha silenciada.

Um político financiado.

Um policial intimidado.

Um juiz ameaçado.

E assim, pouco a pouco, o extraordinário deixa de causar espanto, e o absurdo passa a ser chamado de rotina.

As sociedades possuem uma extraordinária capacidade de se acostumar.

Acostumam-se aos tiros ao longe.

Acostumam-se às áreas proibidas.

Acostumam-se às notícias sobre corrupção.

Acostumam-se até mesmo à ideia de que existam lugares onde a lei escrita vale menos do que a lei imposta pelos fuzis do narcotráfico.

É um hábito perigoso, porque a erosão das instituições não faz barulho.

Uma democracia que se enfraquece pode levar décadas para revelar suas rachaduras.

E há uma diferença importante entre um Estado capturado e um Estado morto.

O Estado morto é aquele que já perdeu a capacidade de existir.

O Estado capturado é mais inquietante.

Ele continua vivo.

Respira.

Arrecada impostos.

Realiza eleições.

Promulga leis.

As grandes ameaças à soberania do século XXI não usam uniformes nem precisam declarar guerra. Movem-se em caminhões, em contas bancárias, em empresas de fachada, em alianças clandestinas e em territórios onde o medo vale mais do que a Constituição.

E, às vezes, o mais perigoso não é quando o crime desafia o Estado.

É quando aprende a conviver com ele.

Pior ainda é quando ambos se acostumam um com o outro.

Mais grave é quando já não se distinguem com clareza, porque estão juntos e misturados.

Há países que morrem de repente, mas há outros que vão perdendo a própria autoridade como uma vela que se consome lentamente.

A chama continua acesa. Por algum tempo.

Até que um dia alguém percebe que restou apenas a fumaça.

E descobre, tarde demais, que o poder já foi capturado pelo crime organizado e pelo narcoterrorismo.

Porque a morte de um Estado raramente é anunciada.

Ela não chega com tanques nas ruas nem com a suspensão imediata das instituições.

Chega quando a autoridade legítima passa a ser disputada.

Chega quando a lei deixa de ser igualmente aplicada.

Chega quando o medo se torna mais eficaz do que a Justiça.

Chega quando a corrupção deixa de ser exceção e passa a ser método.

E chega, sobretudo, quando a sociedade se acostuma.

Porque nenhuma organização criminosa é suficientemente poderosa para capturar uma nação sem a ajuda da omissão, da complacência, da covardia ou do interesse daqueles que deveriam defendê-la.

As nações raramente desaparecem em um estrondo.

Desaparecem aos poucos.

Primeiro, perdem territórios.

Depois, perdem autoridade.

Mais tarde, perdem a confiança dos cidadãos.

E, quando todos finalmente percebem a dimensão da tragédia, descobrem que a bandeira continua hasteada, os hinos continuam sendo cantados e as instituições ainda existem mas a soberania, silenciosamente, já mudou de mãos.

Marcelo Duarte Lins.

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