O silêncio de Lula sobre Daniel Ortega

"Uma simples nota do Itamaraty e nenhuma condenação: como o governo brasileiro reagiu ao fim das eleições na Nicarágua"

No início desta semana, 20 anos depois de chegar ao poder pelo voto, Daniel Ortega cansou das aparências e anunciou que não vai haver mais eleição na Nicarágua, e ponto final. Rasgou a fantasia. Assumiu-se como um ditador - ou coditador, porque no ano passado ele nomeou como copresidente a própria mulher, Rosario Murillo, que para alguns manda tanto ou mais do que ele.

Não há mais prurido algum. O ex-guerrilheiro que liderou a Frente Sandinista de Libertação Nacional e em 1979 depôs Anastasio Somoza, cuja família governava o país desde 1936, colocou no lugar outra ditadura familiar igualmente corrupta. Os filhos de Ortega e Rosario estão muito bem-postos na vida, controlando um império empresarial com tentáculos em mineração, petróleo, energia, comércio exterior, mídia e outras áreas.

São mais de 20 empresas, boa parte já sancionada pelo governo norte-americano por lavagem de dinheiro e corrupção. Em duas décadas, o combatente que estudou apenas até a sexta série saiu da pobreza para alcançar uma fortuna superior a dois bilhões de dólares. Fazer revolução pode ser um grande negócio, como mostram os Castro, em Cuba, e Chávez e Maduro, na Venezuela.

O mundo livre repudiou de imediato o discurso de Ortega no 47º aniversário da revolução sandinista. O governo brasileiro silenciou por quatro longos dias até emitir, pelo Itamaraty, uma nota frouxa em que não condena o ditador, apenas expressa "preocupação ". E, cinicamente, "conclama as autoridades" do país a "assegurarem" ao povo o direito de votar.

Ora, não há mais "autoridades" na Nicarágua, apenas um ditador e sua família, que desde 2006 vêm capturando as instituições - especialmente o Conselho Supremo Eleitoral e os tribunais superiores de justiça, para os quais nomeou lacaios do regime, recrutados principalmente em um parlamento que mais parece um balcão de negócios. E, nesse sentido, o caso nicaraguense é um alerta sobre o rumo que o Brasil pode tomar.

Se, no Brasil, o regime STF-PT triunfar, Lula, que passou a semana sem dar um pio a respeito de seu amigo Daniel Ortega, poderá fazer mais quatro indicações para a Suprema Corte brasileira. Ressalte-se que o STF já está sob controle do partido do presidente e atua com desembaraço na perseguição aos críticos e especialmente aos líderes da oposição real - a mesma fórmula de Daniel Ortega.

Sobre Ortega, ressalte-se que cancelou as eleições a pretexto de defender a "soberania" nicaraguense dos "traidores e vendepátrias". Referia-se à ameaça de "los yanquis". No Brasil, Lula vem praticando discurso semelhante contra a oposição e, esta semana, voltou a insinuar, com seu jeito oblíquo e desapreço à verdadeira história, pena de enforcamento aos que aponta como traidores do Brasil.

A este ponto, nem seu camarada Daniel Ortega chegou.

Eugênio Esber (jornalista)


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