A gula dos musaranhos
"O escândalo do INSS expõe uma rede de interesses que circulava entre lobistas, governo e entorno presidencial"
Os brasileiros dependentes da Previdência, e particularmente os aposentados mais vulneráveis em razão de idade, doença e pobreza, descobrem estarrecidos as entranhas pútridas do esquema de corrupção que tungou seus bolsos em mais de R$ 6 bilhões. Um inquérito da Polícia Federal revelado pela revista Veja mostra como uma gangue de picaretas agia dentro do governo federal, e inclusive na antessala do presidente da República, para construir negociatas envolvendo, entre outras transações, a venda de canabidiol, um derivado da maconha, para o SUS.
Quando prendeu o lobista conhecido como "Careca do INSS", em setembro, a Polícia Federal supôs, com razão, ter detectado o fio condutor para desbaratar a quadrilha que assaltou gente humilde para se locupletar com uma vida de luxos inimagináveis. Não sabia, porém, quão longe iria o conluio. Das mensagens extraídas do telefone do "Careca", a PF chegou a outra lobista, Roberta Luchsinger, que o Brasil conheceu em 2017. Lula havia sido condenado por corrupção no caso do triplex do Guarujá e sofrera bloqueio judicial de R$ 10 milhões em seus bens. Roberta ofereceu a Lula uma doação de R$ 500 mil em dinheiro e joias. Caiu nas graças do PT.
Roberta conta que, em 2023, Lula a convidou para ocupar o cargo que quisesse em seu governo, e ela disse que preferia ficar onde estava - uma sociedade de negócios que mantinha com o filho mais velho de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, e Fernando Bittar, um dos nomes presentes no processo relativo ao sítio de Atibaia, que valeu a Lula uma condenação por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Ela recusou um crachá porque ganharia muito mais atuando com liberdade de movimentos dentro do governo. Apenas em 2024, ela esperava ganhar R$ 100 milhões, conforme afirmou para Lulinha e para Bittar no grupo de WhatsApp que os três mantinham. Nome do grupo: "Musaranhos". Parênteses: musaranho é uma espécie de rato de focinho longo que não rói nada, mas precisa comer o tempo todo e tem um faro insuperável. E pode ser venenoso, o que é significativo quando se tem em conta que, segundo Veja, Roberta já afirmou, em tom de ameaça ao PT e a Lula, que, se for abandonada, não cairá sozinha.
Roberta já declarou ser um alter ego de Lulinha - "Eu sou Fábio" - para assuntos de "negócios". E o filho do presidente, que se mudou para a Espanha assim que eclodiu o escândalo do INSS, diz que é Roberta quem cuida das finanças dele. O chefe de gabinete de Lula, conhecido por "Marcola", foi demitido por ter recebido R$ 249 mil de Roberta. E Swedenberger Barbosa, ex-número 2 do Ministério da Saúde, e hoje no gabinete de Lula, está citado nos diálogos dos "Musaranhos".
Depois do Mensalão e do Petrolão, a rapinagem voltou. E, dependendo do resultado da eleição de outubro, terá vida longa e próspera.



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