As lições de Ceuta

Não fui o único, mas aquelas imagens mexeram comigo. A multidão de jovens marroquinos chegando em boias improvisadas e levantando as mãos para os céus, nas praias de Ceuta. Seria uma prova de que a humanidade fracassou, leio em um texto. A ideia é forte, mas equivocada. A humanidade nunca deu nem bem certo nem bem errado. Mesmo em seus piores momentos, quando os nazistas executavam a Solução Final em Auschwitz ou Treblinka, jovens soldados caíam na Normandia, sob a artilharia alemã, para libertar a Europa da barbárie. A história é feita disso. Do melhor e do pior. Às vezes separados por muito pouco.

O drama das migrações, em nossa época, nos conta exatamente esta história. Marroquinos que chegavam a Ceuta falavam em "trabalho". Alguns murmuravam a palavra "liberdade". Mas a ideia muito real e objetiva que capturava sua imaginação era "Europa". E por nada desse mundo diria que eles estão errados.

Nos tempos recentes nos habituamos a fazer troça de nossa própria herança civilizacional e dos sucessos que o Ocidente produziu, do qual a Europa seja, quem sabe, o maior exemplo. Mas os marroquinos não têm sequer direito a este luxo retórico. Eles sabem atribuir um sentido bastante real à ideia de um mundo que "dá certo". E é sobre isto que o seu drama nos ensina.

A Espanha foi um país pobre e autoritário, pouco tempo atrás. Por volta de 1950, a renda per capita argentina era cerca de o dobro da espanhola. Durante muito tempo se disse "rico como um argentino", na cultura europeia. Nos anos 40, logo depois da Guerra Civil, a Espanha viveu seus "anos de fome", em meio aos inícios do regime franquista.

Depois disso, foi virando o jogo. No final dos anos 50, fez a estabilização e abertura econômica e assistiu a um forte crescimento, nos anos 60. Em 1977, firmou os Pactos de Moncloa e a seguir consagrou sua monarquia parlamentar, sob o Rei Juan Carlos. Nos anos 80 e 90, aprofundou a liberalização econômica, abriu mercados e privatizougrandes empresas estatais, ao mesmo tempo em que se integrava à economia europeia e global. E em 1986 ingressou na Comunidade Europeia, quem sabe a grande obra da inteligência política ocidental, sob a inspiração de Erasmo e ao som de Ode à Alegria, de Beethoven. Não importa o quanto aprendemos a desprezar tudo isso, em um certo ambiente universitário. Aquela multidão marroquina intui algo muito diferente, e é deles que recebemos uma lição trágica sobre o mundo que herdamos.

A história das migrações, das fugas e todos os seus dramas funciona como uma espécie de sinal sobre a ambivalência do mundo. Na América Latina, foi assim com Cuba. A história trágica dos balseros, quem sabe 120 ou 140 mil homens e mulheres, muitas vezes com suas crianças, que se atiravam no Estreito da Flórida, em barcos improvisados por vezes com a carcaça de velhos Buick ou Chevrolets americanos dos anos 50. O que faziam aquelas pessoas arriscando a vida para levantar os braços aos céus, em Sombrero Beach?

A mesma pergunta vale agora, para os mais de sete milhões de venezuelanos que largaram tudo para tentar a vida na Colômbia, no Chile ou no Brasil. Acampados na fronteira de Roraima, humilhados, decidiram arriscar tudo para sair de um mundo que, de fato, é um imenso fracasso. E quem sabe valeria entender suas razões.

Sou da geração que assistiu à queda do muro de Berlim. O muro era feito para impedir que os alemães que ficaram presos, do lado de lá, pudessem escapar do paraíso socialista. Dezenas de milhares tentaram fugir de lá, e mais de cem morreram eletrocutadas ou abatidas a tiros, no próprio muro. E apenas em Adeus Lenin!, o filme genial de Wolfgang Becker, há uma multidão desesperada para fugir do capitalismo opressivo da Alemanha ocidental.

A verdade é que tudo me faz lembrar de Georges Orwell e seu elogio da sabedoria comum. Porque, afinal de contas, as pessoas fogem, migram, pedem refúgio, nadam em meio a tubarões, se arriscam em barcos feitos de pneus velhos ou saltando um muro sob a mira de fuzis? Arrisco dizer que elas sabem do mundo muito mais do que a maioria dos nossos "ideólogos". Sabem que o mundo não é um fracasso, e é precisamente por isso que se movem. Por vezes fugindo de uma ditadura, por vezes da miséria, não importa. A direção do movimento raramente é aleatória.

Se alguém quiser uma boa definição sobre o tipo de mundo no qual nossos migrantes arriscam tudo para ingressar, sugiro observar o que Daron Acemoglu chama de "instituições inclusivas". Há uma certa herança da revolução gloriosa, aí, na ideia do império da lei, das garantias individuais, da garantia de direitos de propriedade e da limitação do poder. Ele dá como exemplo as duas cidades de Nogales, uma no México, outra logo ao lado, no Arizona. Geografia e cultura são similares. Instituições, não. Há um muro alto, no meio, e não há registros de migrantes arriscando a vida para pular na direção do México. O mundo de fato é ambivalente. 

A tragédia dos migrantes tem o poder de nos ensinar muitas coisas. Desde que, por óbvio, estejamos dispostos a aprender.

Por Fernando Schüler


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Militares querem receber como policiais: veja o que o STF decidiu

Elon Musk cria site para expor ao mundo os “crimes de Moraes”

CPMI do INSS pode ser maior que a Lava Jato e o Mensalão