O furacão Roberta
"Ao negar conhecer a lobista, Lula pode ter criado o incentivo que faltava para uma nova frente de revelações".
Ventos de 250 km por hora aterrorizam o coração do poder em Brasília, lançando para os ares mala de dinheiro, minuta de contrato milionário, armário com maços de cédulas, jóias, obra de arte de 100 mil euros comprada no Carrousel du Louvre - uma mixórdia de valores e luxos que o brasileiro comum nunca viu nem vai ver na vida. O vendaval arrancou e arremessou para longe até mesmo uma porta do Palácio do Planalto, justamente aquela que separa o povo do Chefe de Estado. É a porta da chefia de gabinete do presidente da República, a instância final que define quem pode conversar com Lula ou, no esquisito organograma palaciano, quem pode ter acesso franqueado a qualquer um de seus ministros. Ali despachava "Marcola" - nada a ver com o chefe do crime organizado, hoje preso, mas de um assessor de apelido idêntico e que se dedicou a outro tipo de traficância.
A origem dos ventos indomáveis que estão tirando tudo do lugar na capital federal é um telefone. A dona do aparelho é Roberta Luchsinger. O tempo fechou para ela quando a Polícia Federal desbaratou uma organização criminosa que roubou aposentados e pensionistas sob a liderança de um lobista conhecido como "Careca do INSS", preso desde setembro de 2025. A partir de Careca e seus cúmplices, a Polícia chegou em Roberta, que também é lobista. Ao sofrer mandado de busca e apreensão, ela se apavorou. "Antônio", escreveu a Careca, "some com estes telefones. Joga fora." Ela também alertou o comparsa de que a Polícia tinha encontrado em sua casa um envelope "com o nome do nosso amigo". O "amigo" é Lulinha, filho mais velho do presidente, como o Brasil descobriu tão logo a Polícia Federal recuperou as mensagens que Roberta tentou inutilmente apagar de seu celular.
Os presentes e favores de Roberta para Marcola, chefe de Gabinete de Lula, e a explícita referência que ela faz a Lulinha como a figura fundamental para destravar e acelerar negócios milionários em favor de espertalhões com interesses no governo federal, retiram de Lula qualquer resquício de legitimidade moral para pedir aos brasileiros mais um mandato. Há contratos fechados, pagamentos feitos, dinheiro no bolso - aquilo que a gente do direito chama de "materialidade" do crime.
Quinta-feira, sabatinado pela Globo, Lula afirmou que não conhece Roberta e jamais esteve com ela. De imediato, fotos em que os dois aparecem juntos foram postadas nas redes sociais. Resta saber se Lula também mente ao negar a afirmação de Roberta de que ele ofereceu a ela o lugar que quisesse ocupar no governo iniciado em 2023. Lula disse, obliquamente, que se trata de imbecilidade e malandragem esta versão. Pode pagar caro por soltar a mão de Roberta em um eventual acordo de delação que ela decida firmar com a justiça.


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