A República pega fogo. E nós vamos oferecer lenha...

Por Renato Sant'Ana

A República pega fogo. E nós vamos oferecer lenha...

Um leitor bem provido de discernimento, ao ler "1984", a obra magna de George Orwell, mais do que um instigante romance, encontra a revelação minuciosa de um Estado totalitário. Orwell foi certeiro ao dar nome a um elemento constituinte dessa espécie de regime: o "duplipensamento", que consiste em aceitar duas ideias que se anulam, uma à outra, como se não houvesse flagrante contradição entre elas.

Se não fosse uma ameaça à nossa liberdade, seria engraçado ouvir, na propaganda eleitoral do rádio, uma candidata tentar impingir ao eleitor o "duplipensamento". Colocando-se no papel de vítima, ela pede voto para "enfrentar a extrema direita que quer cassar a nossa (dela) palavra".

Nenhum alvo da censura no Brasil é de esquerda. Para se ter uma ideia do cenário, a Revista Timeline teve cassado seus canais em redes sociais: as plataformas alegaram ordem judicial, mas sem informar a acusação. O mesmo revés sofreram várias pessoas que produzem conteúdo político. Em mais de um caso, o You Tube alegou que os vídeos postados não estavam de acordo com as regras, mas sem dizer quais vídeos nem por quê. Porém, só críticos da esquerda tiveram a palavra cassada no país. Fará sentido que a candidata - aliás, de extrema esquerda - diga que sua palavra sofre ameaça de cassação? E pode ela insinuar-se como guardiã da liberdade?

A candidata, que pretende uma vaga no Senado pelo Rio Grande do Sul, é Manuela d'Ávila, que, sem ocultar por completo, defende a implantação de um regime totalitário no Brasil. Em 2020, quando candidata a prefeita de Porto Alegre, foi questionada pelo jornalista Paulo Sérgio Pinto: "O seu comunismo é o chinês ou é o cubano?". Sua resposta, que pretendeu ser astuta, foi: "Não é nenhum dos dois. O meu [comunismo]é aquele que vamos construir juntos no Brasil."

Ora, o comunismo, assim como o fascismo e o nazismo, é uma das formas de totalitarismo e, como os outros, implica a supressão total da liberdade. E nisto está o "duplipensamento", duas ideias que se anulam mutuamente: defender a implantação do comunismo e dizer que protege a liberdade. O pior é que, para muita gente, isso cola!

Quem não gosta de ser livre? Alguém, de sã consciência, renunciaria à própria liberdade? É presumível que todo mundo queira ser livre! Como se explica, então, que tantos acreditem no discurso de políticos devotados a ideologias liberticidas?

O PSOL, de Manuela d'Ávila, assim como o seu ex-partido, PCdoB, defende um projeto totalitário para o Brasil. 

E o faz com um discurso sedutor, prometendo igualdade e atacando inimigos imaginários. Aproveita que a maioria das pessoas só tem tempo para trabalhar e atender necessidades concretas, não para debater a política. Além disso, não é, entre nós, um padrão a coragem de pôr em dúvida as próprias convicções. Fica fácil, pois, a tarefa dos demagogos, que prometem o paraíso e propõem soluções simples para problemas complexos, enfeitiçando a massa e fomentando o "duplipensamento". Como resultado, a liberdade, um bem tão querido e tão frágil, termina, no mínimo, em situação de risco.

Resta uma pergunta: sem liberdade, haverá solução satisfatória para os problemas de uma pessoa, de uma família, de uma cidade ou de um país?

Sem desconhecer que não existe político perfeito - ser humano perfeito não há -, este poderia ser o critério para escolher um candidato: aquele que demonstra maior zelo pela liberdade.


 Renato Sant'Ana, Advogado e Psicólogo.

 E-mail releituras21@gmail.com


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