O que nos faz a cabeça.

Por Renato Sant'Ana

O caso é interessante. Dá o que pensar. E convém pensar. Mas, antes de fazer a anatomia dos fatos, é preciso ponderar alguns aspectos.

A política, no sentido estrito da "busca do poder", só funciona com, ao menos, alguma dose de falácia. Gostaríamos que fosse diferente. Mas quem for honesto e falar tudo o que pensa não se elegerá. Frise-se bem, nem todos os que estão na política são canalhas. Mas não são raros os que só fazem política à base de dissimulação, ou seja, só com falácia.

Segundo Caldas Aulete, "falácia" vem do latim "fallacia", com o sentido de "trapaça" e tem estas acepções: (1) raciocínio ou afirmação falsa ou errônea com aparência de verdadeira; (2) qualidade de falaz, falsidade; e (3) raciocínio logicamente plausível, mas enganoso.

Juliana Brizola, candidata ao governo do Rio Grande do Sul, tem dito em sua campanha que fez aliança com vários partidos, prova, segundo ela, de que está habilitada a fazer um governo de diálogo. Só não diz que esses partidos, em vários momentos, já se mostraram como um saco de gatos. Nem reconheceria que é impossível dialogar com extremistas, isto é, com a estirpe com a qual ela se aliou para fins eleitorais.

O vice, na chapa de Juliana Brizola, é Edgar Pretto, PT. E o é porque, em surdina, Lula e Carlos Lupe - chefes do PT (de Pretto) e do PDT (de Juliana) - encontraram conveniência que assim fosse e o impuseram. O que Pretto queria era ser governador. Mas teve de submeter-se à decisão.

Pretto formou sua mentalidade no MST, do qual seu pai, Adão Pretto, foi um dos fundadores. Pretto está afinado com um grupo formado para agir à margem da lei (inclusive, o MST não tem CNPJ, o que, às vezes, impede a responsabilização civil e criminal de seus atos plenos de ilegalidade). Quer dizer, Pretto é um brigão profissional, que "luta" com elegância e virulência. Pode ser hábil em negociação, mas não em diálogo.

Do combo de Juliana também fazem parte Manuela d'Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT), candidatos ao Senado, que não têm a elegância de Preto.

Na propaganda, eles têm o peito de falar de diálogo e até de liberdade. Mas quando não temem perder voto, pregam a revolução e não ocultam sua simpatia por ditadores como Daniel Ortega (o tiranete que acabou com as eleições na Nicarágua), Hugo Chávez e Nicolás Maduro (que deram causa à maior crise humanitária na ex-riquíssima Venezuela) e, vejam lá!, por Kim Jong-un (o psicopata que faz sangrar o povo da Coreia do Norte). E acham que a ditadura da China (na qual, até o Google é proibido) serve de modelo para o Brasil. Nem vou falar do paraíso deles: Cuba.

Para essa turma, quem não apoia a esquerda é logo rotulado de extrema direita ou de fascista. Aliás, parece piada, ouvir, na propaganda, Edgar Pretto e Paulo Pimenta insinuarem ter intimidade com a agricultura, os dois tentando uma "paquera" com o agronegócio, quando se sabe que PT, PSOL e afins já tacharam o agronegócio de fascista, desprezando o fato de o agro carregar a economia do Brasil nas costas.

Aí vem Juliana Brizola falar de diálogo só porque tem várias siglas na chapa. Ela propõe um raciocínio plausível do ponto de vista lógico, mas enganoso. Enganoso porque grupos agressivos e sectários são incapazes de dialogar. Isso porque, para esses grupos, adversários são inimigos, o embate político é um vale tudo e todo e qualquer meio é justificado pelo fim revolucionário da "luta". Daí, falar de diálogo é falácia rotunda!

Aqui nos devemos perguntar: por que é tão difícil (às vezes, impossível) atuar na política de modo sincero? Por que será "proibido", sob pena de não se eleger, ter honestidade intelectual e falar com franqueza?

Entre nós, são muitos os que preferem mentiras doces a verdades amargas. E são muitos os que não ligam para o debate de ideias e que se deixam guiar por sentimentos de simpatia ou antipatia. É para esse perfil de eleitor que se fazem discursos sedutores e falaciosos.

Teríamos outro ambiente político se, entre nós, o padrão fosse buscar a verdade em vez de adotar bandeiras; e assumir a responsabilidade de quem sabe que os atos de cada um, inclusive as omissões, têm efeito político.

É fácil apontar um dedo acusador para os políticos. Mas devemos admitir que todos nós, de algum modo, ajudamos a produzir a política que temos. E lembrar que ainda somos livres para olhar para além da boa cara que os candidatos exibem na TV. Que ser manipulados com falácias, no mais das vezes, é reflexo de escolhas erradas como: em vez de fazer autocrítica, optar pela comodidade de apontar o dedo acusador; em vez do trabalhoso que é ter opinião informada, agarrar-se a uma opinião sentimentalizada , que nada mais é do que a adoção, por pura simpatia, de crenças (não de conceitos) que outros apregoam com esperteza.

Leia no link "O duplipensamento da candidata": A República pega fogo. E nós vamos oferecer lenha.


 Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.

 E-mail releituras21@gmail.com


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