Soberania de vitrine: o robô do 7 de Setembro, o pneu gasto e a fronteira que o Exército não consegue fechar.
No dia em que o governo encenou "soberania nacional" na Esplanada, o símbolo mais compartilhado não foi um blindado, um caça ou um míssil. Foi um humanoide fardado, em cima de uma Marruá, batendo continência para o palanque dos Três Poderes.
O “protótipo do IME” que o mercado chinês já vende.
O Exército apresentou o equipamento como protótipo do Instituto Militar de Engenharia (IME), ligado a pesquisas de inteligência artificial, automação e atuação em ambiente de risco. Havia outro robô no bloco motorizado, este sim operacional: um sistema antibombas do 2º Batalhão Ferroviário, operado à distância. O humanoide era o número de palco.
Nas imagens oficiais, a máquina usa farda camuflada, patch da bandeira, mãos articuladas brancas e um capacete-viseira com anel luminoso. É o mesmo recorte visual dos humanoides comerciais chineses — em especial a linha Unitree G1, vendida no AliExpress e em lojas oficiais da fabricante a partir de cerca de US$ 13,5 mil no site da empresa e na casa dos US$ 18 mil a US$ 19 mil em canais internacionais.
O perfil militar @hoje_no foi o primeiro a viralizar a comparação: o robô que saudou Lula “é chinês e custa R$ 124 mil no AliExpress”. O valor bate com a faixa de € 20 mil a € 21 mil, a cotação citada nas redes. Até agora, o IME e o Exército não publicaram ficha técnica, origem dos componentes, custo unitário nem se o hardware é desenvolvimento próprio, integração de plataforma importada ou compra pronta com farda por cima. Sem esses dados, a versão oficial (“protótipo nacional”) e a versão das redes (“vitrine chinesa”) convivem no mesmo vácuo.
Não é detalhe de internet. Num desfile cujo eixo declarado era soberania, o país mostrou uma máquina cuja cadeia produtiva, se for a que o mercado já oferece, nasce em Hangzhou — não no IME.
Internautas zoam robô humanoide no desfile em Brasília. Fardado, robô desfilou na Esplanada dos Ministérios e prestou continência para Lula
A Marruá do espetáculo e o pneu que as redes viram careca.
O humanoide não desfilou a pé. Foi carregado numa viatura Marruá, o jipe de emprego geral que há duas décadas é o cavalo de carga do Exército. Nas imagens da passagem pela tribuna, a cena que as redes isolam não é só o braço mecânico: é a banda de rodagem da roda dianteira, apontada por dezenas de posts e comentários como pneu liso, com malha aparente.
Não há laudo do Exército nem perícia jornalística publicada. Há recorte visual e um padrão antigo: frota de emprego diário que chega à cerimônia sem troca de pneu. O próprio planejamento interno da Força, em documentos orçamentários recentes, lista “renovação da frota obsoleta de viaturas” como passivo a recuperar — cerca de 1.500 veículos. Quem precisa pedir verba para trocar jipe não deveria usar o mesmo jipe como vitrine de alta tecnologia.
O contraste é o que fica: robô de dezenas de milhares de reais (ou de yuan) sobre um pneu que, se as imagens estiverem certas, não passaria numa blitz.
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